Seu doutor, eu vim do Nordeste, mas lá também é Brasil. O
senhor me acredite, os homens que vem de lá, são honestos, trabalhadores e
também viram doutores.
Olhe. Me escute: se alguns são desviados pela ganância e
vivem na corrupção, não é culpa do Nordeste, talvez nem de criação, doutor. É
má índole mesmo. Pois veja: o meu pai foi funcionário público por quarenta
anos, criou onze filhos, sem nunca precisar roubar. E o salário ó! (Como diria
o professor Raimundo.) Mas, ele era pau pra qualquer obra, foi candango em Brasília,
ajudou na construção, voltou pro Ceará depois da inauguração e resignado feito
boi de canga no engenho, aceitou o seu destino. Garanto doutor, foi um bravo
nordestino; igualmente aos soldados da borracha, que Vargas levou pro Norte,
para o Acre, pra sofre por lá. Doutor lá em casa, ninguém quase estudou,
porém, uma lição nos foi dada: meu pai nos ensinou a ser honestos e não roubar
ninguém. Foi este o legado que ele nos deixou. O êxodo que a estiagem causa, é necessário aos que o praticam, e inerente à natureza animal que procura a sobre vida.
O nordestino é antes de tudo um forte, já disse Euclides, e por assim ser, é que o nordestino é desbravador; catingueiro quando veste o gibão, valente com sua enxada, resignado vestido de peão. O sudeste doutor, tem as digitais, tem o carimbo das mãos cheias de calos do nordestino, que em todo lugar, onde plantando tijolos e concreto, faz brotar do chão, prédios, que nem capuchos de algodão. Doutor o nordestino, traz para bares e hotéis de luxo, a gentileza do seu curvar altivo, sem submissão. Os que viram doutores, com pequenas exceções, se entregam de corpo e alma, ao que se propuseram.
Celeiro de artista, o nordeste, surge aos borbotões uma boa arte, em qualquer área que for: música, literatura, artes plásticas... Doutor pesquise na internet, que o senhor vai ver que não minto.
Eu não vou mais me estender. Só quero dizer doutor que, eu sou nordestino.
Zé Salvador.
19-03-2016.
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